IMAGENS DO INCONSCIENTE – A MAIOR OBRA DE NISE DA SILVEIRA
“As almas são visíveis em forma de sombras” (ditado indígena)
Inconformada com os métodos violentos de tratamento psiquiátricos como eletrochoque, o coma insulínico, a lobotomia, a psiquiatra Nise da Silveira encontra na Terapêutica Ocupacional uma forma de tratamento para o esquizofrênico.
Funda então, em maio de 1946, o Serviço de Terapêutica Ocupacional no antigo Centro Psiquiátrico Nacional do Rio de Janeiro. Foi através das atividades expressivas como pintura, modelagem e xilogravura que surgiria em 1952 o Museu de Imagens do Inconsciente.
Atualmente seu acervo contém cerca de 350 mil obras entre pinturas desenhos, modelagens, xilogravuras. Parte desta coleção está catalogada, e é no gênero, uma das maiores e mais diferenciadas coleções do mundo.
Além do reconhecimento do valor artístico do acervo pelos artistas e experts em arte o Museu realizou ao longo de seus 54 anos de existência mais de 100 exposições no Brasil e no exterior, dando maior ênfase ao aspecto científico da coleção. Essas exposições sempre atraíram grande público, seja pelo fascínio das formas como também pela revelação do inconsciente.
As imagens produzidas no ateliê levantavam questões, interrogações que não encontravam resposta na formação psiquiátrica acadêmica. Essas questões impulsionaram a Dra. Nise para a busca de conhecimento e aprofundamento dos processos que se desdobravam no interior daqueles indivíduos, revelados através das imagens e símbolos.
O Museu vem divulgando esses conhecimentos acumulados ao longo de 50 anos de existência através de exposições, cursos, publicações e documentários audiovisuais que são regularmente apresentados nas principais universidades e centros de cultura do país, e no exterior.
O trabalho do Museu faz parte da história da reforma psiquiátrica no país, e vem, através de suas atividades, exercendo influência no processo de transformação dos espaços e dos métodos terapêuticos, constituindo-se em um centro de referência na área da Saúde Mental.
O Museu está localizado no bairro de Engenho de Dentro no Rio de Janeiro, e é uma das unidades que compõem o Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira.
NISE DA SILVEIRA, A PRECURSORA JUNGUIANA NO BRASIL
Com sua Participação no II Congresso Internacional de Psiquiatria reunido em Zurique, em setembro de 1957, com o trabalho Expérience d’art spontané chez des schizophrènes dans un service de therapeutique occupationelle (em colaboração com o Dr. Pierre Le Gallais), Congress Report vol. IV, 380-386, foi apresentada a C.G. Jung que abriu a exposição. Jung ficou impressionado com as imagens pintadas no hospital de Engenho de dentro.
Jung, certa vez questionou Dra. Nise da Silveira (na qual trabalhava com muitos pacientes esquizofrênicos que pintavam e esculpiam) se ela tinha estudado mitologia. Ao ver uma resposta negativa Jung disse: “Sem estudar a mitologia, nunca entenderás os delírios e as imagens e seus pacientes os trazem…”.
O mito Dafne: Deus Apolo se apaixonou pela ninfa Dafne, filha de Rio Ladão e da Mãe Terra. Dafne se esquiva sempre do Deus que não desistia de te-la. Dafne se volta para sua mãe Terra que a metamorfiza em vegetal. Esse mito se caracteriza pela filha tão apegada a mãe que acaba não logrando os frutos de um desenvolvimento saudável. “Queria ser flor” disse uma vez uma paciente para Dra. Nise.
Marie-Louise von Franz aprendeu que os mitos de criação refletem como um espelho processos inconscientes e pré-consciente que revelam esforços para a estruturação da consciência ou o alcance de novos níveis de consciência do mundo.
Acrescenta que muitas vezes a irrupção da esquizofrenia é precedida por sonhos, medos, visões de fim de mundo, de destruição cósmica. E ao contrário, na saída do episódio esquizofrênico aparecem na produção psíquica temática e símbolos dos mitos de criação, na medida em que a consciência se reconstrói e a função do real volta a afirmar-se.
Assim como o biólogo necessita da anatomia comparada, também o psicólogo não pode prescindir da anatomia comparada da psique. Em outros termos, o psicólogo precisa, na prática, ter experiência suficiente não só de sonhos e outras expressões da atividade inconsciente mas também da mitologia no seu sentido mais amplo. Sem esta bagagem intelectual ninguém pode identificar as analogias mais importantes; não será possível, por exemplo, verificar a analogia existente entre um caso de neurose compulsiva e a clássica possessão demoníaca sem um conhecimento exato de ambos. (JUNG)
Por estas palavras, Jung expressa a importância da mitologia para a Psicologia Analítica, definindo-a como parte essencial para o estudo das expressões inconscientes da psique humana. Pela mitologia torna-se possível desvendar a linguagem simbólica dos sonhos, pois suas referências arquetípicas estão calcadas em padrões comportamentais humanos coletivos e arcaicos. Há muitas semelhanças entre os mitos, qualquer que seja seu país de origem, encontramos os mesmos dramas e tragédias por que passa o homem nas diversas fases de sua vida, apenas muda-se o contexto cultural.
“OS INCONSCIENTES”
Fernando Diniz, baiano, nascido em 1918. Mulato e pobre nunca conheceu o pai. Suas obras são fascinantes e intrigante pela diversidade dos tipos de obras deste baiano, olhando para suas obras, sente-se que elas acompanhavam a variação de seu estado psíquico, variando desde mandalas, desenhos japoneses até gravuras medonhas arrancadas da mídia. Era como estar em um carro andando por uma rodovia e olhando todos os outdoor’s e assim passando o que via para o papel. Quando desorganizado seu inconsciente produzia desenhos de auto destruição, vendo isso Dra. Nise colocou uma monitora exclusivamente para acompanhá-lo, mesmo que não abrindo a boca. Essa monitora ser tornou uma catalisadora de seus desenhos e ele encontrou a ternura em sua catalisadora passando a fazer desenhos japoneses, totalmente diferentes dos habituais, Quando indagado pela Dra. Nise sobre o porque desses desenhos ele respondeu que a monitora parecia uma japonesa e realmente, ele tinha olhos levemente puxados.
Dra. Nise levou algumas obras de Fernando para Zurique, e as vendo, Jung identificou em uma delas um “mandala”. Jung analisou e citou aquilo como que sendo a capacidade de uma mente esquizofrênica tem de reorganizadora e auto curativa.
Do ponto de vista da psiquiatria tradicional, apesar de sua obra extraordinária ser reconhecida no campo das artes plásticas no Brasil e no estrangeiro, Fernando continuava sendo considerado um crônico em estado de grave deterioração, com a afetividade embotada, sem nenhuma perspectiva de trazer para a coletividade dons de qualquer espécie.
Nas alterações que ocorreram na psique de Fernando não aconteceram as graves cisões que ocasionam o avassalamento total do campo do consciente pela invasão de conteúdos emergentes da profundeza do inconsciente. Mas se o ego não se espatifou, teve sua capacidade de síntese perturbada. Era demasiado fraco para assumir o papel que cabe a mais alta instância psíquica de reunir seus conteúdos em unidades significativas e hierarquicamente estruturadas.
Fernando falhou em levar o termo a reconstrução de sua psique. E, antes da psicose, já era um indivíduo profundamente ferido na imagem que fazia de si próprio, sobretudo devido às condições sociais opressoras e às contradições que dilaceraram sua infância. Todo o curso de sua vida foi demasiado trágico e os métodos de tratamentos usados no hospital psiquiátrico paradoxalmente massacram cada vez mais essa auto-imagem e são implacavelmente hostis aos movimentos de defesa das forças auto-curativas que tentam a reconstrução da psique dissociada.
Fernando Diniz produziu até sua morte em 1999.
Nesta exposição, além das grandes obras de Fernando Diniz, podemos ver outros grandes criadores, dentre os quais posso citar:
Abelardo Correia, o mais clássico de todos. Alagoano e desenhista por profissão, passou a dedicar-se ao boxe aos 17 anos. Internado em 1949, já não era um leigo, era uma espécie de artesão, que se fez durante o internato. Generosamente ofereceu seus conhecimentos aos colegas do atelier. O grande destaque de sua obra são, sem dúvida, suas modelagens. Segundo o crítico Marinho de Azevedo, elas são “uma mistura de rigor e de facilidade que a torna de classificação difícil”. Muitas de suas esculturas foram reproduzidas em cartões postais e livros.
Geraldo Aragão, nascido na Bahia e chegado no hospital de Engenho de Dentro em 1956 e já era desenhista técnico de profissão. Nunca pintou, mas gostaria de fazê-lo e passou a freqüentar a oficina de encadernação e atelier de pintura. Adorador de fotos, tinha como ponto alto suas fotografias ora de paisagens e cenas da cidade, ora formas abstratas, sempre buscando o contraste entre luz e sombra, atingindo um alto nível de qualidade. Ele se considerava surrealista e acreditava que as cores tinham influência sobre o indivíduo. “Acho que a cor do ambiente pode modificar o indivíduo”.
Raphael Domingues , filho de espanhóis e reconhecido por grandes críticos de arte. Nascido em 1913, era tido pela família como um menino tímido, sensível e retraído. Foi internado aos 19 anos e desenhava gravuras nas paredes de enfermaria. Por esta motivo foi encaminhado para seção terapêutica ocupacional. Seu prazer em desenhar onde era uma pessoa queria o despertou uma significativa criatividade e seus desenhos atingiram qualidades artísticas reconhecidas por críticos como Leon Degand, Sérgio Milliet, Mário Pedrosa e outros. Participou de diversas exposições coletivas e individuais, no Brasil e no exterior.
Desenhou no atelier até julho de 1979, morrendo em novembro do mesmo ano.
Sds…
janeiro 5, 2011 às 5:07 pm |
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