REDES SOCIAIS OU MIDIAS SOCIAIS…

Ferramentas de produtividade, interação ou de declínio profissional?

 

     Hoje, com facilidade, estabeleço conexões profissionais com pessoas de meu interesse, envio currículos, faço cursos (até em graduação), acho amigos e familiares até então distantes, não esqueço mais aniversários, consigo conduzir reuniões via sistemas de voz e imagem estando em estados ou continentes diferentes. Poucas perguntas objetivas ficam sem resposta se utilizo ferramentas de busca. E, para encerrar, recentemente o Twitter noticiou a morte de Osama Bin Laden antes de Obama. Atualmente batalhas são travadas e revoluções são fomentadas por estas ferramentas, as redes sociais. A internet com certeza é um fenômeno.

 

     É fato que nunca estivemos tanto em contato com informações e com outros seres humanos como hoje. Uma criança de sete anos tem acesso à mesma quantidade de informação quanto uma pessoa de setenta no século passado. Falo no momento em quantidade e não qualidade das informações disponíveis, que ficará para outra discussão. Mas precisamos lembrar que se conectar não é interagir e que informação não é conhecimento.

 

Estar conectado não significa estar em rede

 

     Talvez este seja o nosso grande desafio: Transformar conexão em interação e transformar informação em conhecimento. E em consequência do alcance deste desafio dividir este conhecimento em rede, ou seja, em um capital derivado desta interação. Nisso pactuo com as idéias de Augusto de Franco, autor dos livros “O poder nas redes sociais” e “Fluzz”, e grande pensador do assunto no Brasil. Diz ele que você não precisa estar conectado a pessoas por ferramentas de interação para estar em rede. O que chamamos de redes sociais, são na verdade ferramentas digitais de interação e que estar em rede é o produto que deveria haver destas interações. O capital social é a própria rede, o que esta entre as pessoas que interagem e se mobilizam. A prova disto, como também cita Augusto de Franco eram os Apaches. Os Apaches se organizavam em rede. Por isso conseguiram resistir aos espanhóis, aos mexicanos e aos americanos, sendo assim uma prova de que redes sociais não são mídias sociais. Usavam sinais de fumaça para interagir.

 

     Mas que fenômeno é este na qual nos conectamos a centenas, milhares de pessoas, mas ao mesmo tempo nos sentimos só? Onde ficam nossas reais relações? Onde fica o saber, diferentemente do informar?

 

Solidão

 

     Bem, sempre digo para meus pacientes e clientes que a pior solidão é aquela que sentimos quando estamos cercados de pessoas. E a solidão realmente se estabelece quando não conseguimos ser boas companhias para nós mesmos. Tão próximos, mas muito mais distantes. Hoje vejo famílias juntas dentro de uma mesma casa, mas pessoas totalmente distantes, isoladas em seus quartos com seus computadores, TV’s, smartphones, conversando pela internet com pessoas de todos os tipos e lugares. Viramos ilhas dentro de nossos lares. Saímos de casa e não sabemos dirigir sem um GPS nos dizendo aonde ir e nos fazendo companhia. E o mais curioso é que apesar de estarmos cercados de GPS’s por todos os lados, ainda não temos (nem deveríamos ter) mínima idéia de onde viemos e para onde vamos.

 

Busca de trabalho

 

     Outro fenômeno contemporâneo nas organizações é que a nova geração de executivos prefere estas ferramentas digitais de interação na hora de procurar um novo emprego. É o que revela pesquisa da consultoria Michael Page divulgada neste mês de Abril. Segundo o levantamento, 65% dos profissionais com idade entre 26 e 30 anos preferem as redes sociais e os sites para procurar informações sobre oportunidades de carreira. Estas ferramentas de interação, por muitas vezes nos ajudam em nossos desafios profissionais, entre eles conseguir ou mudar de trabalho. Muitas empresas já utilizam Orkut e Facebook para pesquisa de candidatos, Skype para entrevistas a longas distâncias e Twitter para dinâmicas envolvendo a escrita. Independente se é valido ou não como prática de seleção, devemos sempre estar atentos ao que publicamos, escrevemos e com quem nos relacionamos na internet. É como um vidro que se tocarmos, deixamos nossas digitais por onde estivermos.

     Por isso, não pode haver julgamento se uma tecnologia é boa ou ruim, e sim como a utilizamos. Podemos produzir, aprender, se fazer conhecer, crescer, dividir, interagir de forma saudável ou podemos declinar como escreverei a seguir.

 

O auto-boicote

 

     Procrastinar é o hábito se esquivar, empurrar com a barriga ações importantes que gerem ansiedade, se alimentando de outras ações menos importantes, complementares ou irrelevantes. Comportamento é sintoma e aquele que procrastina, o faz porque algo o remete a tentar fugir desde sofrimento exagerado que a ansiedade pela responsabilidade traz. Muitos já procrastinam desde a infância, mas a internet, ferramentas de interação e comunicação nos oferecem refugio no excesso de estímulos e informações que apresenta. Nos sentimos seguros, acolhidos e mais fortes na internet. Sem estas ferramentas, nos sentimos sós, dependentes. Não conseguimos mais manter boas conversas com pessoas nos olhando nos olhos, não conseguimos responder perguntas sem buscar respostas prontas na internet, tudo é muito rápido e ao mesmo tempo descartável. Isso não é estar em rede.

 

     A força das mídias digitais e das ferramentas de interação fazem de cada encontro real e pessoal um evento grandioso, mas preocupantemente evitado por todos. O excesso de estímulos me anestesia de minhas angústias gerando outras, piores. O fato é que as ferramentas que criamos para melhorar a comunicação utilizamos para evitar encontros, contatos e vínculos. A Internet não é uma rede mundial computadores, é uma rede mundial de pessoas, mas ainda não sabemos como ela se comporta e não sabemos nos comportar nela.

 

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