A CULTURA, O ESTRANGEIRO E AS ORGANIZAÇÕES

    Certo dia, um professor, durante uma de suas aulas, me questionou: “Quem tem mais cultura, um violeiro analfabeto, morador de uma pequena cidade do interior de Minas Gerais ou um catedrático da Academia Brasileira de Letras?”

     Para mim não havia resposta mais óbvia que a segunda. Porém refletindo cheguei à outra conclusão.

     Ninguém tem mais cultura que ninguém, seja o violeiro ou o catedrático. A hierarquização do termo cultura é um tanto recente. Cultura é um conjunto de experiências, conhecimentos, costumes, lendas e pressupostos adquiridos por um indivíduo de acordo com sua região, mitos, língua, país, etc…

     Já Edward Tylor chamava a cultura de “aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”.

     Já o surgimento da dicotomia e, consequentemente, a hierarquização entre “cultura erudita” e “cultura popular”, não é tão antigo assim. Ou seja, cultura todo mundo tem.

     O mesmo acontece com as organizações. Não existe, em minha opinião, uma cultura melhor ou pior. A questão é que falta ao profissional identificar caracteristicas destas culturas que dirão muito sobre a empresa e aí sim avaliar nossa própria adequação e adaptação à cultura desta organização. Empresas alemãs, japonesas, americanas, chinesas, francesas, italianas, familiares, de capital aberto ou uma Ltda. Todas são culturas distintas, todas com seus créditos e com suas limitações. Quanto menos se sabe sobre a cultura organizacional, de onde vem a organização e onde se instala, mais aumentam as chances de uma complicada adaptação.

      Diferentemente de tempos atrás em que o fenômeno dos “expatriados” tinha apenas uma única direção, a de saída do país, hoje, com o fortalecimento da economia, e reconhecimento internacional, muitos bons profissionais vêem o Brasil com bons olhos pelo clima, cultura e potencial econômico.

      Nenhuma adaptação é tão simples quanto parece, principalmente quando falamos de culturas (muito) diferentes, idioma, horários, alimentação, perfil social da população e o pior, estar a milhas e milhas de distancia de seu verdadeiro lar, da sua família. No Brasil, por exemplo, dentre muitas coisas, o que os estrangeiros aqui residentes citam como negativamente curioso é algo muito (e não só) nosso, o “jeitinho brasileiro”, damos sempre um jeitinho para tudo. O “jeitinho” hoje nos liga a algo pejorativo, pois é diretamente vinculado ao ilegal, imoral ou a malandragem. Uma pena, pois este mesmo “jeitinho” poderia e pode ser um grande diferencial para nossos executivos fora do país na lida criativa com adversidades e na adaptabilidade quando embasado na moral, na legalidade e na ética.

       Mas a pós-modernidade e a globalização trazem um acalanto para quem migra. Saber que também o mundo é sua casa, o planeta é seu escritório.

      Narrativa do “não sou daqui”, do estrangeirismo é a resposta inicial e fundante da subjetividade moderna, me contou certa vez meu colega psicanalista Contardo Calligaris. Eu não me explico apenas pelo berço em que nasci. Nasci aqui, mas não sou daqui.  Não somos definidos nem pela historia de nossos ascendentes nem pelo conjunto de normas e lendas de nossas tribos. Por isso que a origem e o destino futuro são pra nós, incógnitas entre as quais nos remete ao “inventar”. Estamos condenados ao dinamismo e a ficção de inventar, escrever um roteiro para nossa vida fora do país.

Afinal, todos nós, que inventamos, reinventamos, narramos nossa vida, e a bancamos como um grande projeto que é, somos também estrangeiros.

*Para ler a matéria na íntegra pela revista Trade Summit, clique aqui

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.